Lamarca vive

Manifesto Carlos Lamarca

50 ANOS DO ASSASSINATO DO GRANDE LÍDER GUERRILHEIRO REVOLUCIONÁRIO E A IMPORTÂNCIA DE SUA MEMÓRIA PARA O PAÍS

1. Após o golpe empresarial-militar de 1964, que durou 21 anos, o Brasil viveu um período de horror, assassinatos, torturas e perseguições implacáveis contra aqueles e aquelas que lutavam por democracia e pelo socialismo. Foram marcas de um regime que, pela violência e pelas armas, buscava manter o poder, reprimindo sistematicamente o povo. Muitos desafiaram a ditadura, e o Capitão Carlos Lamarca foi um destes brasileiros que, junto com diversas outras pessoas, engajaram-se na luta armada contra o regime ditatorial.

2. Carlos Lamarca sempre terminava seus escritos com a frase “Ousar lutar, ousar vencer”. Ele se tornou um dos principais lutadores da oposição armada à ditadura no Brasil. Entrou muito jovem no exército, e, ao vê-lo tornar-se inimigo do povo, decidiu ingressar na luta armada. Diferentemente do que a ditadura afirmou, ele não desertou, foi o exército que traiu o povo brasileiro.

3. Em 17 de setembro de 2021 completam-se 50 anos do assassinato de Lamarca pela ditadura. Seu exemplo de luta e dedicação, assim como o de muitos outros brasileiros e brasileiras, nunca deve ser esquecido ou deturpado, como tentam fazer, até hoje, setores reacionários da sociedade brasileira.

4. A passagem de Lamarca pelo Vale do Ribeira, em São Paulo, e de outros guerrilheiros, é histórica. Juntos, enfrentaram a maior mobilização do II Exército de que se tem notícia. Os militares bombardearam a região com napalm, em uma operação de quase 3.000 homens, frustrada pela genial escapada, realizada sob a liderança de Lamarca. Mais do que isso, a Operação Registro significou truculência, arbitrariedades e uma sucessiva sequência de irregularidades, como mostraram os trabalhos da Comissão da Verdade Rubens Paiva.

5. Expressões emblemáticas deste processo foram os sucessivos grilos de terra e violências cometidos por policiais, militares e parentes de políticos alinhados aos governos militares que pilharam parte do patrimônio público do Vale do Ribeira/SP, cujos efeitos são sentidos ainda hoje. A memória do Lamarca e do que sua luta representa permanece viva em toda a região.

6. Em 2012, no Parque Estadual do Rio Turvo, um dos locais da base da VPR, foi inaugurado um busto em homenagem a Lamarca com uma cerimônia em defesa da democracia. A instalação foi uma decisão do Conselho do Parque, integrado por membros do poder público e da comunidade, além de ter seguido todos os trâmites administrativos e públicos.

7. No ano de 2017, durante visita ao local, Ricardo Salles, ex-ministro de Bolsonaro e à época secretário de meio ambiente do governo Geraldo Alckmin (PSDB), ordenou que o comandante da PM Ambiental, de forma ilegal, retirasse a estátua, em descompasso com os procedimentos públicos e administrativos. Mandou retirar também um painel que narrava a passagem de Lamarca e outros dezoito guerrilheiros por aquela região em 1970, onde estabeleceram um campo de treinamento.

8. A atitude arbitrária de retirada dos patrimônios do Parque gerou revolta e deu início a um movimento pela recolocação do busto, que nunca mais foi encontrado. Salles é alvo de medidas judiciais, mas a situação nunca foi resolvida e o busto nunca foi recolocado. Tendo em vista a importância de lembrar a luta do povo brasileiro contra a ditadura, a sociedade civil organizada em diversos movimentos sociais, partidos e organizações uniram-se para produzir um novo busto, de modo a reparar a injustiça cometida contra a memória da luta do povo brasileiro por justiça, direitos e liberdade.

8. A reconstrução do busto em memória da luta contra a ditadura e lembrando os muitos significados da passagem do Lamarca e de toda a VPR pelo Vale do Ribeira é de fundamental importância, especialmente se considerarmos o momento histórico atual, marcado por um governo militarizado e autoritário, pelo saque ao patrimônio do povo, pela retirada de direitos e pelos constantes insultos de um presidente da República que homenageia torturadores, assassinos, e ataca os lutadores da liberdade e do povo que - como Lamarca - dedicaram suas vidas tentando construir uma nova sociedade, combatendo a ditadura e os exploradores do povo.

Lamarca presente! “Ousar Lutar, ousar vencer”

 
 

Assinam este manifesto:

 

Claudia Lamarca

Darcy Rodrigues

Anticapitalistas - PSOL

Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA)

Contrapoder

Partido Comunista Brasileiro

Unidade Popular pelo Socialismo

Sindicato Nacional dos Docentes das instituições de Ensino Superior (ANDES)

Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL)

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - SP

Sintusp

Ação Popular Socialista - PSOL

Comuna - PSOL

Instituto São Paulo de Ciências Aplicadas

Sindsprev/RJ

Instituto de Defensores de Direitos Humanos - DDH

Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade

Partido Comunista Revolucionário

Coletivo Rosa Luxemburgo no Andes-SN

Centro de Defesa dos Direitos Humanos Pedro Lobo

ADUFF-SSind Associação dos docentes da UFF

Adufrj - SSind - Seção Sindical dos Docentes da UFRJ

SINDUFAP - Sindicato dos Docentes da UNIFAP

ADUFPel-SSind Associação dos Docentes da UFPEL

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cajati

SINTPq

 

Dep. Federal Fernanda Melchionna
Dep. Federal
 Glauber Braga

Dep. Federal Ivan Valente

Dep. Federal Luiza Erundina

Dep. Federal Nilto Ignacio Tatto

Dep. Federal Paulo Teixeira

Dep. Federal Samia Bonfim
Dep. Estadual Hilton Coelho (BA)

Dep. Estadual Carlos Giannazi (SP)

Dep. Estadual José Américo (SP)

Dep. Estadual Paulo Fiorilo (SP)

Vereador Jhonatas Monteiro (Feira de Santana - BA)

Vereador Fernando Carneiro (Belém-PA)
Vereador Pedro Ruas (Porto Alegre - RS)

Vereadora Mariana Conti (Campinas - SP)

Vereador Celso Giannazi (São Paulo - SP)
Vereadora Erika Hilton (São Paulo - SP)

Carla Clemente

Gabriel da Silva Teixeira

Gilson Amaro

Maria Orlanda Pinassi

Marinalva Oliveira

Marino Mondek

Mario Maestri

Nélson Serathiuk

Plínio Arruma Sampaio Jr.
Virgínia Fontes

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Quem foi Lamarca?

“Ousar lutar, ousar vencer”. Era assim que Carlos Lamarca, um dos principais lutadores da oposição armada à ditadura no Brasil, terminava seus escritos. Ele entrou na carreira militar bastante cedo e, alguns anos após o golpe, chegou a ser capitão do Exército brasileiro. Mas, em 1969, já engajado na luta armada contra o regime, desertou e foi expulso da corporação no ano seguinte. Considerado em certo momento o inimigo número um do regime, foi duramente perseguido e fuzilado pelos militares.

Um momento marcante de sua formação foi em 1962, quando foi enviado para integrar as forças de paz da ONU na região de Gaza (Palestina), de onde voltou 18 meses depois. Uma experiência que marcou sua vida e sensibilizou o jovem contra as injustiças sociais.

Em 1967, foi promovido a capitão e, dois anos depois, já militante da organização que daria origem à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organizou um grupo de militares do 4º Regimento de Infantaria para desertarem daquela unidade, levando consigo 63 fuzis e metralhadoras leves que deveriam servir para a luta armada contra a ditadura.

Para manter a segurança da família, Lamarca mandou a mulher e os dois filhos para Cuba, onde viveram por dez anos. Em 1959, ele havia se casado secretamente com Maria Pavan, sua irmã de criação, que já esperava o primeiro filho do casal.

Na VPR, conheceu Iara Iavelberg, por quem se apaixonou imediatamente. Os dois passaram a viver juntos em diversos aparelhos pelo país. As cartas de amor que trocaram nesse período são conhecidas, assim como o famoso diário do guerrilheiro, com textos dirigidos a ela.

Dentre suas ações contra a ditadura, está o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970, que resultou na libertação de 70 presos políticos dos porões da ditadura, além de vários assaltos a bancos para financiar as ações do grupo armado. Viveu quase um ano clandestino em São Paulo, participando de ações de guerrilha urbana, até se instalar no Vale do Ribeira, com um reduzido grupo de militantes, para realizar treinamentos militares.

O local foi descoberto pelos órgãos de segurança em abril de 1970 e cercado por tropas do Exército e da Polícia Militar. Uma gigantesca operação de cerco se prolongou por 41 dias, mas, após dois choques armados, o pequeno grupo guerrilheiro, sob a liderança do capitão rebelde, conseguiu escapar rumo a São Paulo.

Em março de 1971, seis meses antes de sua morte, desligou-se da VPR para se integrar ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que o deslocou para o sertão da Bahia, no município de Brotas de Macaúbas, com a finalidade de estabelecer uma base da organização naquela região.

Em 17 de setembro de 1971, Lamarca foi fuzilado por integrantes da “Operação Pajuçara”, em Ipupiara, no interior da Bahia. Essa operação, iniciada em agosto de 1971, entrou para a história como uma das mais violentas, sobretudo em Buritis, que se tornou à época um verdadeiro campo de concentração, com torturas e assassinatos em praça pública, diante da população.  Lamarca tinha 34 anos quando morreu.

Mais de 30 anos depois, em 2007, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a patente de coronel do Exército a Carlos Lamarca e o status de perseguidos políticos à sua primeira esposa, Maria Pavan Lamarca, e a seus dois filhos, que passaram a ter direito a pensão e indenização. Em 2010, entretanto, acatando ação do Clube Militar, a juíza Cláudia Maria Pereira Bastos Neiva suspendeu a decisão da Comissão de Anistia. A questão continua indefinida.

Em 1980, Emiliano José e Oldack Miranda escreveram a biografia “Lamarca: o capitão da guerrilha”. E em 1994 o diretor Sérgio Rezende lançou o filme Lamarca, baseado no livro.

Trecho de carta de Lamarca a seus filhos:

 

“Brasil, 26 de julho de 1969
Aos meus filhos
Vivo falando de vocês com meus companheiros, eles estão longe dos filhos também e falam nos filhos deles. Um só é o desejo de todos nós, é que nossos filhos sejam revolucionários. O que é um revolucionário? É toda a pessoa que ama todos os povos, ama a Humanidade, tem uma imensa capacidade de amar, ama a justiça, a igualdade. Mas ele tem de odiar também, odiar os que impedem que o revolucionário ame, porque é uma necessidade amar. Odiar aos que odeiam o povo, a Humanidade, a justiça social. Odiar aos que dominam e exploram o povo, odiar aos que corrompem, ameaçam e alienam as mentes, aos que degradam a Humanidade, aos injustos, falsos, demagogos, covardes”

Trecho de cartas de Lamarca a Iara:

 

“Sonhei com você. Acordei num misto de alegria e tristeza – compreendi que te desejava. (…) Sinto-me oco. Esse estado não posso superar, o que posso fazer? No fim, um cocô atolado”.
“Sonhando com você, acordo no meio da noite e volto a sonhar. Sonhei com você até nas vias de fato, pode? Ora, por que o sonho? Necessidade sexual não pode ser só, já sonhei inclusive nesse nível com você. Como, até mesmo dormindo contigo sonhei, só posso concluir que a minha cuca é mais complicada do que eu pensava”.

Trecho de carta de Lamarca a sua esposa:

 

“Brasil, 26 de julho de 1969
Minha querida esposa,
O meu pensamento vive voltado para essa ilha, constantemente, mas o dia de hoje se reveste de especial atenção, de meditação, o pensamento que aflora é iniciar – cumpre iniciar a luta. Ainda não recebi notícias.
A organização a que pertenço, a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR-Palmares), que nasceu da fusão da Vanguarda Popular Revolucionária com o Comando de Libertação Nacional, não tem canal de comunicação com a ilha, só quem tem é o Marighella. Aí pensam que ele é o líder e o comandante da revolução no Brasil. É engano, primeiro porque não tem qualidades para isso, é egoísta, personalista e desleal, e segundo porque a organização dele (não tem nome – usa-se o nome dele) é mal estruturada; muitos militantes dele estão passando para a nossa organização.
A concepção brasileira da luta é a seguinte: quem imprime a luta no campo são as cidades. O fundamental é a luta no campo, mas, se ela iniciar e for derrotada no campo, a organização bem estruturada nas grandes cidades, dentro de pouco tempo, pode reiniciar. A nossa organização é a única que está bem estruturada nas grandes cidade e já começamos a organizar no campo. Antes não havia nada e nenhuma organização sozinha poderia levar o processo à frente – agora vamos.”

 
 

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